
Após intensas negociações, o governo espanhol e o Vaticano chegaram a um acordo histórico para a “ressignificação” do Vale de Cuelgamuros – antigo Vale dos Caídos -, o mausoléu construído pelo ditador Francisco Franco em sua “perpétua memória”, onde dezenas de milhares de vítimas da repressão estão enterradas, em San Lorenzo de El Escorial, uma cidade perto de Madri.
A informação foi divulgada pelo jornal elDiario, que afirma que o acordo é resultado de uma reunião “extremamente produtiva” no Vaticano entre o ministro espanhol da Presidência e Justiça, Félix Bolaños, e o secretário de Estado da Santa Sé, cardeal Pietro Parolin, no último dia 25 de fevereiro, e de discussões posteriores com o arcebispo de Madri, José Cobo.
Citando fontes com “conhecimento do assunto”, a publicação destaca que o tratado prevê a permanência dos frades beneditinos na Basílica do complexo monumental, que não será dessacralizada, e a transformação do local em lugar de memória e reconciliação, em conformidade com a lei da Memória Democrática da Espanha.
Além disso, inclui, entre seus pontos-chave, que a área do altar da basílica e os bancos adjacentes serão preservados como um espaço de culto, com acesso independente. Já os demais espaços do templo – vestíbulo, átrio, naves e cúpula – serão alvo de intervenções artísticas e museográficas de ressignificação, compatíveis com as celebrações religiosas.
Também será anunciado um concurso internacional de ideias, com a participação de um representante da Igreja Católica, para definir os detalhes da transformação. A comunidade beneditina permanecerá no Vale de Cuelgamuros, mas o antigo prior Santiago Cantera e outras duas figuras religiosas, que se opuseram à transferência dos restos mortais de Franco da basílica, em outubro de 2019, para o cemitério civil de El Pardo, deixarão o complexo, de acordo com os termos do acordo prévio.
Por fim, está excluída a demolição da grande cruz que domina o antigo Vale dos Caídos. Cantera, historiador e ex-candidato do partido Falange, foi recentemente destituído de seu cargo, oficialmente após completar os três anos permitidos como administrador da basílica, e foi substituído por Alfredo Maroto.
Desta forma, o acordo destaca “a vontade mútua” do governo e da Igreja Católica de colaborar no processo de transformação, promovendo os valores do diálogo, do respeito e da convivência”.