
O médico italiano Sergio Alfieri, responsável pela equipe que atendeu o Papa Francisco durante seus quase 40 dias de internação no Hospital Policlínico Agostino Gemelli, em Roma, revelou que o pontífice esteve perto da morte em ao menos duas ocasiões e foi salvo por algo “como um milagre”.
A declaração foi dada em entrevista publicada pelo jornal italiano Corriere della Sera.
Segundo o professor e diretor do departamento de cirurgia do hospital, a equipe médica de Francisco teve que decidir se continuaria ou não o tratamento após ele sofrer sua primeira grave crise respiratória, em 28 de fevereiro, quando teve um episódio de broncoespasmo e falta de ar.
“Pela primeira vez, vi lágrimas nos olhos de algumas pessoas ao seu redor. Pessoas que, pelo que percebi durante esse período de internação, o amam sinceramente, como um pai. Estávamos todos cientes de que a situação havia piorado ainda mais e que havia o risco de ele não sobreviver”, acrescentou.
A gravidade foi tamanha que a equipe médica teve que tomar uma decisão difícil: “Tivemos que escolher se pararíamos e o deixaríamos ir, ou forçaríamos e tentaríamos todos os medicamentos e terapias possíveis, correndo o risco muito alto de danificar outros órgãos”, além dos pulmões, relatou o especialista.
De acordo com Alfieri, Jorge Bergoglio permaneceu lúcido o tempo todo, mas delegou as decisões ao seu enfermeiro pessoal, Massimiliano Strappetti, em quem ele tem total confiança.
Por sua vez, Strappetti ordenou aos médicos que “tentassem de tudo, não desistissem”. “E ninguém desistiu”, afirmou.
Com o passar dos dias, a crise foi contida e o Pontífice começou a responder ao tratamento. No entanto, logo depois, seu estado de saúde voltou a piorar. “Estávamos saindo do período mais difícil, quando o papa Francisco teve uma regurgitação e inalou [o que comia]. Foi o segundo momento realmente crítico porque nesses casos, se não forem socorridos prontamente, há risco de morte súbita, além de complicações nos pulmões, que já eram os órgãos mais comprometidos. Foi terrível, realmente achamos que não conseguiríamos [salvá-lo]”, disse Alfieri.
O líder da Igreja Católica, de 88 anos, ficou hospitalizado por quase 40 dias para tratar uma pneumonia bilateral e recebeu alta no dia 23 de março, apesar dos temores de que ele não sobrevivesse.
Na entrevista, Alfieri destacou que a noite em que o Papa passou mal pela segunda vez “foi terrível”, porque “ele sabia, assim como nós, que talvez não sobrevivesse àquela noite”. “Mas desde o primeiro dia ele nos pediu para lhe contar a verdade”.
Além dos esforços técnicos de sua equipe, o professor creditou a recuperação do Papa às orações recebidas. “Há uma publicação científica segundo a qual as orações dão força aos doentes; neste caso o mundo inteiro começou a rezar”, afirmou o médico.
“Posso dizer que duas vezes a situação foi perdida, e então aconteceu como um milagre.” Alfieri revelou ainda como foi a ida do argentino ao hospital.
“Ele estava doente há dias, mas resistiu porque provavelmente queria respeitar os compromissos do Jubileu. Quando ele começou a respirar cada vez mais com dificuldade, percebeu que não podia mais esperar. Ele chegou ao Gemelli sentindo muita dor, mas talvez também um pouco irritado. Mas em poucas horas ele recuperou o bom humor”, concluiu.
Por fim, assim que começou a sentir-se melhor, Bergoglio pediu para dar uma volta pela enfermaria. Em determinado momento, com auxílio de uma cadeira rodas, saiu do quarto cinco vezes. Além disso, ofereceu uma noite de pizza aos colaboradores que o acompanharam durante o dia. “Foi uma melhora contínua e entendi que ele havia decidido retornar à Santa Marta quando, uma manhã, ele me disse: ‘Ainda estou vivo, quando voltamos para casa?’. No dia seguinte, ele olhou pela janela, procurou o microfone e se dirigiu à senhora com as flores amarelas. Pareceu-me um sinal claro de que estou de volta e totalmente recuperado”, concluiu.