O projeto de lei que autoriza a união civil entre pessoas do mesmo sexo na Itália está perto de perder um de seus itens mais importantes: a "adoção de enteados". Para aprovar o texto no Senado, o governo centro-esquerdista de Matteo Renzi estuda retirar a permissão para homossexuais registrarem os filhos de seus parceiros (na ausência do outro pai biológico) e assim conseguir o apoio do partido Nova Centro-Direita (NCD), que integra a base aliada.
Segundo fontes da maioria, o premier e seus líderes na Câmara Alta confirmaram a orientação de aprovar a reforma por meio de um acordo com "os parceiros do NCD", que exige a retirada da "adoção de enteados" e da equiparação da união civil ao matrimônio para apoiá-la. Expoentes da legenda conservadora acreditam que o primeiro item poderia abrir espaço para as "barrigas de aluguel".
Ainda de acordo com os mesmos informantes, a decisão de formar um pacto com a Nova Centro-Direita foi tomada porque os senadores do oposicionista Movimento 5 Estrelas (M5S) não são "confiáveis". Na semana passada, após ter declarado apoio integral ao projeto, o partido liderado pelo humorista Beppe Grillo se recusou a votar uma manobra do governo que eliminaria de uma só vez todas as centenas de emendas apresentadas por conservadores e permitiria que o texto passasse tal qual foi escrito.
Sozinho, o Partido Democrático (PD), de Matteo Renzi, não tem os votos necessários para aprovar a medida no Senado, por isso precisa costurar acordos com outras legendas. O próprio primeiro-ministro deu a entender que a remoção da "adoção de enteados" será mesmo o caminho seguido pelo governo.
"Não podem existir crianças de série A ou B, mas a Itália não tem nem mesmo uma lei sobre as uniões civis", declarou o premier em um encontro com a imprensa estrangeira. Provavelmente, o PD deve propor a "adoção de enteados" em um próximo projeto de lei. O novo texto, sem qualquer menção a esse item, pode ter também o apoio do Forza Italia (FI), de Silvio Berlusconi.
Com o projeto reescrito, o governo deve submetê-lo ao voto de confiança, manobra que impede a apresentação de emendas e condiciona sua aprovação à própria permanência do Executivo.
Além da "adoção de enteados", o texto atual equipara os direitos civis dos casais gays aos de um matrimônio, sendo que este último continuará sendo exclusividade dos cônjuges heterossexuais.